Ele, deitado na pedra do rio, descansando, pôde entrar em contato com uma verdade que traz consigo a idade do céu e a pungência da vida. E foi tudo pelos respingos d’água.
Percebeu que os respingos não o atingiam de maneira regular, antes acertavam-no em quantidades diferentes e em partes diferentes do corpo. Pensou por um instante em como a água fluindo sempre a mesma e sempre outra em volume estável como pulsação sanguínea por um leito milenar de pedras arredondadas poderia produzir respingos sempre desiguais. Confundiu-se com pensamentos lusco-fuscos. Não conhecia tão bem o rio pelo qual saltava de pedra em pedra usando as mãos e os braços como um símio. Aquele emaranhado de água espumante e pedras de todas as formas e texturas enfim, perdia o sentido.
Não reconhecia o rio por um breve instante. Alguma coisa estava ali, e só agora percebia. Uma presença espreitava.
De olhos fechados o temor se dissipava e ele se acostumou com a respiração acelerada do rio. De olhos fechados ele pôde ouvir sua voz grave e distante.
A voz lhe contou sobre todos os tempos, pois o rio é o passado em seu leito, o futuro em seu devir, e está sempre presente em suas águas. O rio lhe contou do tempo em que a memória não alcança, nos quais a terra era feita de fogo e fúria, e criaturas míticas caminhavam de baixo do sol com suas dimensões épicas sem serem constrangidas ou incomodadas. Contou-lhe do nascimento do seu povo, tão antigo como o vento, aparentado das árvores, com a pele da cor da terra e os olhos da cor do firmamento. Também contou sobre a vinda dos homens com suas armas, seus machados, suas cruzes e suas casas, e lhe revelou que eles trariam a escravidão, ruína e trevas ao seu povo.
Assim soube algo que já havia intuído – o movimento perpétuo do rio, como é infima sua finitude diante dele, e como é eterno e extenso o presente.
Ele se lembrou quando escutou o rio a contar essas coisas, lembrou como quem acaba de aprender uma verdade inédita.
O diafragma de uma câmera fotográfica abre e fecha em poucos milisegundos para a luz entrar e registrar a imagem no filme. Esse pequeno momento que registra a imagem poderia ser uma vida. Essa rápida abertura durou 84 anos, a vida do meu avô foi a piscadela de uma máquina fotográfica.
Eu queria ter aprendido a jogar no bicho com ele e a apostar nos cavalinhos. Ele era um ótimo apostador, um jogador de primeira. Nos últimos dias me disse: "O jogo não é para se ganhar, o jogo é para se jogar, ganhar é um acidente de percurso que acontece as vezes. O jogo existe para ser jogado, só isso." E a vida existe para ser vivida, só isso, ele me ensinava. Dele ficou meu gosto pelas cartas, meu bigode, e o vício que o levou pra longe, que o fez encantar aos 84. Eu queria ser meu avô. Eu queria seu sorriso doce e sua calma diante da vida. Eu queria seu senso de humor rabugento e inesperado, que divertia surpreendendo, sempre.
Nos últimos tempos o seu gosto por faroestes italianos e meu gosto por cinema nos aproximou ainda mais. Eram ótimas as tardes de filme com cerveja e queijo de aperitivo.
Eu queria ter tido tempo e dinheiro para levá-lo para um passeio naquele cassino de Viña del Mar. Para pagar um bom barbeiro que lhe desse um atendimento especial e lhe comprar um terno de bom corte em um alfaite. Queria vê-lo elegante mais uma vez, jogando cartas naquele lugar. Não houve tempo, mas tudo bem.
Meu avô faleceu dia 8 de janeiro. Dia do fotógrago, sua profissão a vida inteira. O diafragma aberto há alguns milisegundos se fechou e registrou uma imagem: seu sorriso doce. Para sempre numa foto.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
O velhinho resmungava, zangava, de um jeito senil e fraco. Não impunha respeito às crianças em volta que lhe exigiam atenção e participação nas brincadeiras. - "Vamos brincar assim! Vamos brincar assado! Agora faz de conta que você é montanha! Agora faz de conta que é mar ou árvore!" - e ele resmungando: "Sai fora muleque! Assim não! Deixa o velho descansar...". Zanga e lamento, zanga e lamento. Ele reclamava mas nunca saía, nunca se punha fora do alcance das crianças. Ali sempre estava, sempre a reclamar, sempre a brincar e a ceder a vontade da criançada. Sempre contrariado.
Quando ele distraído pela idade, que faz das pessoas aéreas, olhava para o nada lembrando da vida esquecida, daquela vida que pulsava em vozes finas e que ele de longe identificava e tentava apertando os olhinhos em direção ao nada recordar - quando ele buscava no horizonte isso tudo, as crianças o encaravam em silêncio por um momento e sussurravam telepaticamente entre si: "Ele é um de nós." Ele não enxergava mas elas o viam assim. Ele não recordava mas elas sabiam assim mesmo. Quando ele volta de sua viagem a lugar nenhum - em sua busca que nada encontra mas que altera seu exterior fazendo as crianças o reconhecerem - elas sabem o que fazer. Não podem se denunciar em sua cumplicidade, ele não entenderia. Voltam a importuná-lo, voltam a sugerir brincadeiras incompreensíveis para a cabeça do velho e a pular incoveniente e descabidamente sobre ele de uma forma que seu corpo, já calejado pela idade, tampouco compreendia.
As crianças gostavam uma das outras, mas todo os seus afetos convergiam a um só ponto - o velho.
Nesta tarde as folhas não caíram. Mantiveram-se poucas, mirradas, nas árvores semi-peladas pelo outono. Quanto menos folhas equilibradas nos galhos, mais se sentiam solitárias e desamparadas, sentiam vontade de pular para encontrar suas irmãs no chão. Mas não nessa tarde, aguentaram-se bravamente ao vento frio. Sua vontade de beber mais da seiva era tão grande que se tornavam um fardo mesmo para sua mãe que a essa época do ano já não tem mais tanto leite para compartilhar.
Ela, sem saber porquê, perdia seus cabelos.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Ele recebeu cartas de amor pela primeira vez na vida. Em sua sala pobre lia uma a uma com cuidado e satisfação. Amava de volta a cada palavra de afeto, a cada expressão de carinho. Sobre mesa de madeira com uma gaveta em baixo, bebia seu vermute, fumava seus cigarros, lia e relia suas cartas de amor. Até que bateram violentamente na porta, uma, duas, três, quatro vezes. Ele correu sobresaltado, acordado à força de um sonho bom. Foi até a porta e verificou pelo olho mágico que eram eles. Eram cinco dessa vez, todos de terno cinza, gravata e chapéu. Enormes, fortes e gordos. Correu de volta até a mesa, pegou suas cartas e as queimou rápido com o isqueiro. Bateram denovo, e denovo, cada vez com mais violência. Na quarta vez estava pronto, foi correndo atender a porta mas um chute a escancarou violentamente espatifando seu nariz e arrancando-lhe um dente da frente.
Os homens entraram e começaram a espancá-lo. Socos, pontapés, atiravam-no contra a parede e miravam nas quinas para causar maior dano. E lhe gritavam: “Quem? Quem, filho da puta?” – ele resistia, nunca entregaria seu amor. Mais tortura e violência. Pegam na cozinha seus garfos e cravam na sua pele. O sangue jorra e ele grita alucinadamente. Pegam as facas e começam a retalhar seu rosto, sempre gritando: “Quem te ama? Quem te ama?”. Quando trazem da copa o ferro de passar e ele vê que o estão ligando na tomada não resiste mais e grita chorando: “Ninguém! Ninguém!”. Os homens de terno cinza se entreolham sem expressão, largam-no no chão e saem pela porta.
A ambulância vem e consertam-no para que ele possa trabalhar no dia seguinte.
No dia seguinte sai para o trabalho e cumprimenta os vizinhos tentando esconder a vergonha que sentia por seu rosto deformado e costurado. Na volta, passando pelo parque, escutou o canto de um passarinho. Com sua boca murcha, remendada e sem dentes tenta imitá-lo e estupefato, consegue. Tinha até mesmo a impressão de que sua boca quebrada, agora emitia melhor sons de passarinho do que palavras humanas. Conversava com o canarinho e o entendia, e a ave, enamorada veio pousar em seu ombro. Ele cumprimentou com um sorriso que parecia um bueiro sem dentes e levou sua nova paixão pra casa.
Quando voltava do trabalho passavam horas a conversar e sorrir um pro outro: ele, sem dentes – o pássaro, com um pio. Dava de comer na mão, o alpiste. Deitado de costas no chão, observava com cuidado seu vôo gracioso dentro do apartamento vazio com pouca mobília. Denovo, enquanto se encontrava em estado de graça, os homens de terno cinza espancavam a porta. Ele levantou-se num pulo. Abriu a janela e o passarinho se foi. Ele correu para abrir a porta e os homens, mais uma vez, entraram batendo. Com um empurrão o fizeram cair estatelado sobre a mesa que cedeu e quebrou. Usaram o pé da mesa como arma, ora a parte rombuda virava bastão a lhe acertar o rosto, ora a parte lascada virava lança a perfurar seu corpo. Enquanto gritava de dor ele só pensava em seu passarinho, tão amarelo, tão alegre e tão pequeno. Os homens de terno gritavam com ele: “Quem te ama, seu filho da puta? Quem te ama agora?” – e após toda a tortura ele murmurou com uma voz quase inumana: “Ninguém...”.
Agora ele apenas acenava com a cabeça, não conseguia mais falar. Ia e voltava do trabalho em silêncio. Seu corpo alquebrado fazia com que ele mancasse e se contorcesse enquanto andava. Sentava torto na posição que lhe fosse mais confortável. Na volta do trabalho passando pela estrada encontrou uma flor. Ela lhe sorria graciosamente. Cintilava em suas cores, e dizia em uma voz doce só ouvida pelos mudos: “toma-me, toma-me”. Ele a pegou, vigiando por sobre os ombros, assustado, colocou-a com um tanto de terra em um saco plástico e carregou até sua casa. Lá chegando a retirou do saco e colocou-a em um vidro de conserva que tinha guardado. Colocou-a sobre a mesa e ficou a olhar. Durante horas nada passou, até que vieram os homens de terno cinza, gravata e chapéu. Ele não sabia como se livrar da planta. Resolveu correr e atirá-la na lata de lixo. Os homens invadiram a casa e o espancaram tanto, tanto, que logo ele estava quase fora de si. E como das outras vezes lhe gritavam: “Quem te ama? Quem te ama, seu merda?”. Com suas últimas forças ele emitiu um gemido, que foi interpretado pelos homens de terno cinza como um “Ninguém” e era isso mesmo que queria dizer.
Veio a ambulância e o levou, mas desta vez não tinha conserto. Ficou deitado numa cama de enfermaria esperando a hora de sua morte. Tinha apenas um olho, entre-aberto, a pequena bilha negra brilhava à luz fria do ambiente. Uma enfermeira se aproximou e olhou. Se reclinou sobre seu corpo e sussurrou no seu ouvido: "ninguém". Ele fechou seu olho e morreu.
sábado, 19 de dezembro de 2009
Ela o encontrou sentado em um banco de praça. Ele não a viu, continuou olhando para frente sem dar conta de sua presença. Ela sentou-se ao seu lado. Ele não virou o rosto, continuou olhando em frente, mirando o horizonte.
Ela lhe perguntou: "o que você vê?" - e um segundo após terminar a pergunta percebeu que ele era cego. Ele a respondeu assim:
"Vejo o céu pipocado de nuvens na alvorada, todo rosado. Vejo no campo verde as ninfas correndo a buscar abrigo nos bosques, na sombra das árvores. Também correm os centauros ribombando o chão com seu galope, como se a terra fosse tambor.
Na rua de pedras o trabalhador desce, já com a pele lustrosa do calor da manhã. Leva na mão seu almoço embrulhado e em seu cinto as ferramentas da obra.
Um fauno com seu sorriso malicioso o convida para uma partida de cartas antes que o sol venha também expulsá-lo para os bosques. Queria enganar o homem mas este não o escutou, pois já era cristão e agora ele só era enganado por seu patrão, seu pastor, seu magistrado - não jogava mais com os faunos, não dançava mais com as ninfas, não bebia com os leprechauns. Assim como eu não posso mais enxergá-la, mas consigo ouvir-te e sei que está sentada ao meu lado soprando lembranças no meu coração."
sábado, 12 de dezembro de 2009
Tive um sonho de revolta e violência. Acordei agitado e rouco com a gritaria. Tive a certeza de que ela não voltaria e isso me trouxe paz. Resolvi fumar um cigarro por que lembrei que ele espalha a dor do peito para todo o corpo, trazendo desânimo e náusea mas fazendo com que me sentisse mais digno e não apenas ridículo e envergonhado. Apago a luz para que me veja.