Eu queria que tudo desaparecesse agora. Eu queria que o mundo cessasse de existir num piscar de olhos. Eu queria que tudo sumisse num sussurro. Eu queria que a cachoeira parasse de correr e que o céu escurecesse e eu queria esse vazio, esse silêncio, porque ele já habita dentro de mim. Eu queria a escuridão, eu queria a ausência do meu corpo pra que ele não sentisse a ausência do seu. Eu queria que tudo acabasse rápida e subitamente para não deixar nem suspeita nem lembrança de existência. Eu queria que tudo sumisse, eu queria o vazio.
Eu queria que não tivesse mundo, eu queria que nunca tivesse havido mundo. Eu queria a paz do eterno, da eterna ausência de tudo. Eu queria o nada: nada pra frente, nada pra trás, nada presente, nada ausente. Eu queria o nada infinitamente em todas as direções.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Contam as estrelas que o arvoredo espesso sombreava um segredo. Esse segredo estava tão bem escondido que dele só sobraram as migalhas no canto da cotovia e no lamento das corujas.
Qualquer um que souber costurar as vozes dos pássaros o adivinhará mas os últimos que sabiam já desapareceram há muitos anos. Resta então adivinhá-lo em um olhar desprevenido de uma águia, que às vezes também olha perdida sem saber no que pensar.
Só assim - quando a águia olha fixo, porém sem mirar nenhuma presa - é possível vislumbrar a mensagem. No reflexo desse olhar está descrita a nossa invenção; que somos todos ficções da natureza.
Do lado de cá também podemos ver outras coisas mais. Podemos ver lampejos do eterno; porque as aves desse tipo sofrem mil mutações nos mergulhos mortais pelo ar a cada farfalhar de pena, mas seu olho permanece de um cristalino impassível.
Depois de dito tudo isso, uma vez mais contaram as estrelas e o total computado foi algo completamente diferente do início levantando a suspeita de que era o céu que escurecia algum segredo.
Da última vez que eu conferi o céu ainda estava suspenso e minha barba ainda crescia; mas quem nesse mundo vai acreditar em mim se eu sou só o sonho de uma borboleta?
quarta-feira, 24 de março de 2010
Legião.
Quando estou em grupo e mesmo assim insisto em agir de próprio mote; de desviar para caminhos outros, de escolher a solidão, sou censurado como individualista. Mal sabem eles que não há nada de individual em minhas escolhas, que minhas vontades não me pertencem. Já questionaram minha solitude. Já ralharam dizendo que todo mundo precisa de alguém para cuidar e ser cuidado, e que é dever de cada um ser responsável por outro, nem que seja um outro qualquer.
Eu fui compelido a responder a verdade.
A verdade é que eu tenho que cuidar de alguém; uma criança. Ela é tão caprichosa em suas vontades que toma muito do meu tempo e minha atenção, e isso não é de todo ruim porque me sinto só e abandonado sem sua risada e suas idéias sem pé nem cabeça. Tenho que ir onde ela quer e quando ela quer, mas já disse que isso pra mim não é desprazer. Fico triste quando passo o dia longe dela, trabalhando ou tendo que atender a outras pessoas. De todos quem me faz falta é ela que transforma meu cotidiano em coisa leve e suportável. Preciso cuidar dela pra que não vá embora – essa criança que mora dentro de mim.
E além dessa criança há também um senhorzinho que às vezes me assalta com sua sabedoria; e eu, acato sua palavra. Seus silêncios são vastos como a grande muralha; o que faz com que suas palavras sejam tão plenas de sentido – flor que brota no fundo infinitamente pedregoso. Nada do que diz é descabido apesar de ser sempre inesperado; tamanha a sua simplicidade diante da perversão das coisas. Assim, tudo que me diz encaixa na ordem do mundo. Eu preciso de silêncio e isolamento para escutá-lo, porque a solidão é alimento necessário para sua lucidez antecipar o inevitável em conselhos que aplacam a indignação e a revolta diante das circunstâncias da vida. Tranqüilo e plácido, ele vem a mim.
Além desses ainda têm o monge, o pirata, o índio, o mímico e muitos outros. Como posso eu dar conta de outras pessoas se tenho que administrar essa legião dentro de mim?
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Rio.
Ele, deitado na pedra do rio, descansando, pôde entrar em contato com uma verdade que traz consigo a idade do céu e a pungência da vida. E foi tudo pelos respingos d’água.
Percebeu que os respingos não o atingiam de maneira regular, antes acertavam-no em quantidades diferentes e em partes diferentes do corpo. Pensou por um instante em como a água fluindo sempre a mesma e sempre outra em volume estável como pulsação sanguínea por um leito milenar de pedras arredondadas poderia produzir respingos sempre desiguais. Confundiu-se com pensamentos lusco-fuscos. Não conhecia tão bem o rio pelo qual saltava de pedra em pedra usando as mãos e os braços como um símio. Aquele emaranhado de água espumante e pedras de todas as formas e texturas enfim, perdia o sentido.
Não reconhecia o rio por um breve instante. Alguma coisa estava ali, e só agora percebia. Uma presença espreitava.
De olhos fechados o temor se dissipava e ele se acostumou com a respiração acelerada do rio. De olhos fechados ele pôde ouvir sua voz grave e distante.
A voz lhe contou sobre todos os tempos, pois o rio é o passado em seu leito, o futuro em seu devir, e está sempre presente em suas águas. O rio lhe contou do tempo em que a memória não alcança, nos quais a terra era feita de fogo e fúria, e criaturas míticas caminhavam de baixo do sol com suas dimensões épicas sem serem constrangidas ou incomodadas. Contou-lhe do nascimento do seu povo, tão antigo como o vento, aparentado das árvores, com a pele da cor da terra e os olhos da cor do firmamento. Também contou sobre a vinda dos homens com suas armas, seus machados, suas cruzes e suas casas, e lhe revelou que eles trariam a escravidão, ruína e trevas ao seu povo.
Assim soube algo que já havia intuído – o movimento perpétuo do rio, como é infima sua finitude diante dele, e como é eterno e extenso o presente.
Ele se lembrou quando escutou o rio a contar essas coisas, lembrou como quem acaba de aprender uma verdade inédita.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Vovô Zequinha
O diafragma de uma câmera fotográfica abre e fecha em poucos milisegundos para a luz entrar e registrar a imagem no filme. Esse pequeno momento que registra a imagem poderia ser uma vida. Essa rápida abertura durou 84 anos, a vida do meu avô foi a piscadela de uma máquina fotográfica.
Eu queria ter aprendido a jogar no bicho com ele e a apostar nos cavalinhos. Ele era um ótimo apostador, um jogador de primeira. Nos últimos dias me disse: "O jogo não é para se ganhar, o jogo é para se jogar, ganhar é um acidente de percurso que acontece as vezes. O jogo existe para ser jogado, só isso." E a vida existe para ser vivida, só isso, ele me ensinava. Dele ficou meu gosto pelas cartas, meu bigode, e o vício que o levou pra longe, que o fez encantar aos 84. Eu queria ser meu avô. Eu queria seu sorriso doce e sua calma diante da vida. Eu queria seu senso de humor rabugento e inesperado, que divertia surpreendendo, sempre.
Nos últimos tempos o seu gosto por faroestes italianos e meu gosto por cinema nos aproximou ainda mais. Eram ótimas as tardes de filme com cerveja e queijo de aperitivo.
Eu queria ter tido tempo e dinheiro para levá-lo para um passeio naquele cassino de Viña del Mar. Para pagar um bom barbeiro que lhe desse um atendimento especial e lhe comprar um terno de bom corte em um alfaite. Queria vê-lo elegante mais uma vez, jogando cartas naquele lugar. Não houve tempo, mas tudo bem.
Meu avô faleceu dia 8 de janeiro. Dia do fotógrago, sua profissão a vida inteira. O diafragma aberto há alguns milisegundos se fechou e registrou uma imagem: seu sorriso doce. Para sempre numa foto.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
O velhinho resmungava, zangava, de um jeito senil e fraco. Não impunha respeito às crianças em volta que lhe exigiam atenção e participação nas brincadeiras. - "Vamos brincar assim! Vamos brincar assado! Agora faz de conta que você é montanha! Agora faz de conta que é mar ou árvore!" - e ele resmungando: "Sai fora muleque! Assim não! Deixa o velho descansar...". Zanga e lamento, zanga e lamento. Ele reclamava mas nunca saía, nunca se punha fora do alcance das crianças. Ali sempre estava, sempre a reclamar, sempre a brincar e a ceder a vontade da criançada. Sempre contrariado.
Quando ele distraído pela idade, que faz das pessoas aéreas, olhava para o nada lembrando da vida esquecida, daquela vida que pulsava em vozes finas e que ele de longe identificava e tentava apertando os olhinhos em direção ao nada recordar - quando ele buscava no horizonte isso tudo, as crianças o encaravam em silêncio por um momento e sussurravam telepaticamente entre si: "Ele é um de nós." Ele não enxergava mas elas o viam assim. Ele não recordava mas elas sabiam assim mesmo. Quando ele volta de sua viagem a lugar nenhum - em sua busca que nada encontra mas que altera seu exterior fazendo as crianças o reconhecerem - elas sabem o que fazer. Não podem se denunciar em sua cumplicidade, ele não entenderia. Voltam a importuná-lo, voltam a sugerir brincadeiras incompreensíveis para a cabeça do velho e a pular incoveniente e descabidamente sobre ele de uma forma que seu corpo, já calejado pela idade, tampouco compreendia.
As crianças gostavam uma das outras, mas todo os seus afetos convergiam a um só ponto - o velho.
Quando ele distraído pela idade, que faz das pessoas aéreas, olhava para o nada lembrando da vida esquecida, daquela vida que pulsava em vozes finas e que ele de longe identificava e tentava apertando os olhinhos em direção ao nada recordar - quando ele buscava no horizonte isso tudo, as crianças o encaravam em silêncio por um momento e sussurravam telepaticamente entre si: "Ele é um de nós." Ele não enxergava mas elas o viam assim. Ele não recordava mas elas sabiam assim mesmo. Quando ele volta de sua viagem a lugar nenhum - em sua busca que nada encontra mas que altera seu exterior fazendo as crianças o reconhecerem - elas sabem o que fazer. Não podem se denunciar em sua cumplicidade, ele não entenderia. Voltam a importuná-lo, voltam a sugerir brincadeiras incompreensíveis para a cabeça do velho e a pular incoveniente e descabidamente sobre ele de uma forma que seu corpo, já calejado pela idade, tampouco compreendia.
As crianças gostavam uma das outras, mas todo os seus afetos convergiam a um só ponto - o velho.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Por qué se suicidam las hojas cuando se sienten amarillas? - Pablo Neruda
Nesta tarde as folhas não caíram. Mantiveram-se poucas, mirradas, nas árvores semi-peladas pelo outono. Quanto menos folhas equilibradas nos galhos, mais se sentiam solitárias e desamparadas, sentiam vontade de pular para encontrar suas irmãs no chão. Mas não nessa tarde, aguentaram-se bravamente ao vento frio. Sua vontade de beber mais da seiva era tão grande que se tornavam um fardo mesmo para sua mãe que a essa época do ano já não tem mais tanto leite para compartilhar.
Ela, sem saber porquê, perdia seus cabelos.
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